quarta-feira, 5 de março de 2014

Fallen: Capítulo 11 "Rude despertar"

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— Está com medo? — Justin perguntou.
Sua cabeça estava inclinada para o lado, seu cabelo dourado desgrenhado por uma brisa suave. Ele estava segurando-a, e enquanto seu aperto estava firme em torno de sua cintura, era tão suave e leve como um lenço de seda. Seus próprios dedos estavam entrelaçados atrás do pescoço sem camisa dele.
Ela estava com medo? Claro que não. Ela estava com Justin. Finalmente. Em seus braços. A verdadeira questão incomodando nos fundos de sua mente era: Deveria ficar com medo? Ela não podia ter certeza. Nem mesmo sabia onde estava.
Ela conseguia sentir o cheiro de chuva no ar, próxima. Mas tanto ela quanto Justin estavam secos. Ela conseguia sentir um longo vestido branco fluindo até seus tornozelos. Havia só um pouco de luz do dia restante. Luce sentiu um arrependimento penetrante ao desperdiçar o pôr-do-sol, como se houvesse algo que ela pudesse fazer para detê-lo. De alguma forma, ela sabia que esses raios de luz finais eram tão preciosos quanto as últimas gotas de mel em um jarro.
— Você fica comigo? — ela perguntou.
Sua voz era o mais fino sussurro, quase cancelado por um gemido baixo de trovão. Uma rajada de vento girou ao redor deles, soprando o cabelo de Luce em seus olhos. Justin cruzou seus braços com mais força ao redor dela, até que ela conseguisse respirar a respiração dele, pudesse sentir o cheiro da pele dele na dela.
— Para sempre — ele sussurrou de volta.
O som doce de sua voz a completou.
Havia um pequeno arranhão do lado esquerdo da testa dele, mas ela esqueceu dele enquanto Justin pegou suas bochechas entre as mãos e trouxe seu rosto mais para perto. Ela inclinou sua cabeça para trás e sentiu todo o seu corpo ficar frouxo de expectativa.
Finalmente, finalmente, os lábios dele desceram nos dela com uma urgência que tirou seu fôlego. Ele a beijou como se ela pertencesse a ele, tão naturalmente como se ela fosse alguma parte dele há muito tempo perdida que ele pudesse enfiar recuperar.
Então a chuva começou a cair. Ensopou seus cabelos, correu pelos seus rostos e suas bocas. A chuva estava quente e inebriante, como os próprios beijos.
Luce esticou sua mão ao redor das costas dele para puxá-lo mais para perto, e suas mãos deslizavam em algo aveludado. Ela correu uma mão sobre isso, depois outra, buscando seus limites, e então olhou para além do rosto brilhante de Justin. Algo estava se desenrolando atrás dele.
Asas. Lustrosas e iridescentes, batendo devagar, sem esforço, brilhando na chuva. Ela as tinha visto antes, talvez, ou algo parecido com elas, em algum lugar.
— Justin — ela falou, arfando.
As asas consumiram sua visão e sua mente. Elas pareciam girar em um milhão de cores, fazendo sua cabeça doer. Luce tentou olhar para outro lugar, para qualquer outro lugar, mas de todos os lados, tudo que ela podia ver além de Justin eram os rosas e azuis infinitos do céu se pondo. Até que ela olhou para baixo e observou uma última coisa. O chão. Milhares de metros abaixo deles.
***
Quando ela abriu seus olhos, estava muito claro, sua pele muito seca, e havia uma dor imobilizante na parte de trás de sua cabeça. O céu tinha ido embora, assim como Justin. Outro sonho.
Só que esse a deixou se sentindo quase doente de desejo.
Ela estava em um quarto de paredes brancas. Deitada em uma cama de hospital. À sua esquerda, uma cortina fina como papel tinha sido arrastada pela metade do quarto, separando-a de algo se movimentando no outro lado.
Luce delicadamente tocou o ponto tenro na base do seu pescoço e choramingou. Ela tentou se orientar. Não sabia onde estava, mas tinha uma nítida sensação de que não estava mais na Sword & Cross. Seu vestido branco largo era – ela deu um tapinha nas laterais – uma folgada camisola de hospital. Ela conseguia sentir cada parte do sonho escapulindo – tudo exceto aquelas asas. Elas tinham sido tão reais. O toque delas tão aveludado e fluído. Seu estômago agitou-se. Ela fechou e abriu seus punhos, hiperconsciente de seu vazio.
Alguém agarrou e apertou sua mão direita. Luce virou sua cabeça rapidamente e recuou. Ela tinha assumido que estava sozinha. Gabbe estava empoleirada na beira de uma cadeira giratória azul desbotada que parecia, irritantemente, realçar a cor dos olhos.
Luce queria se desvencilhar – ou pelo menos, ela esperou querer se desvencilhar – mas então Gabbe lançou-lhe o sorriso mais quente, um que fez Luce se sentir, de alguma forma, segura, e ela percebeu que estava feliz por não estar sozinha.
— Quanto disso foi um sonho? — ela murmurou.
Gabbe riu. Ela tinha um pote de creme para cutículas na mesa ao lado dela, e começou a esfregar o negócio branco com aroma de limão nas unhas de Luce.
— Isso tudo depende — ela respondeu, massageando os dedos de Luce. — Mas não se importe com sonhos. Eu sei que sempre quando sinto o meu mundo virando de cabeça para baixo, nada me acalma como uma manicure.
Luce olhou para baixo. Ela nunca fora muito de esmalte, mas as palavras de Gabbe a lembraram de sua mãe, que sempre sugeria que elas fossem à manicure quando Luce tinha um dia ruim.
Enquanto as mãos lentas de Gabbe trabalhavam em seus dedos, Luce se perguntava se todos esses anos ela estivera perdendo isso.
— Onde nós estamos? — ela perguntou.
— Hospital Lullwater.
Sua primeira viagem para fora do campus e ela acabara em um hospital a cinco minutos da casa dos seus pais. Na última vez em que ela estivera aqui fora para tirar três pontos de seu cotovelo quando ela caíra da sua bicicleta. Seu pai não havia deixado o seu lado. Agora ele não estava em lugar algum.
— Há quanto tempo estou aqui?
Gabbe olhou para o relógio branco na parede e disse:
— Eles te acharam desmaiada devido a inalação de fumaça na noite passada por volta das onze. É procedimento operacional padrão chamar o Técnico de Emergência Médica quando encontram alguém do reformatório inconsciente, mas não se preocupe, Randy disse que vão te deixar sair daqui logo logo. Assim que seus pais assentirem...
— Meus pais estão aqui?
— E cheios de preocupação com a filha deles, até as pontas do cabelo com permanente da sua mamãe. Eles estão no corredor, se afogando em papelada. Eu disse a eles que ficaria de olho em você.
Luce resmungou e apertou seu rosto no travesseiro, convocando a profunda dor na parte de trás de sua cabeça novamente.
— Se você não quiser vê-los...
Mas Luce não resmungava por causa de seus pais. Ela estava morrendo de vontade de ver seus pais. Ela estava se lembrando da biblioteca, do fogo, e da nova geração de sombras que ficava mais assustadora cada vez que a encontravam. Elas sempre foram escuras e feias, elas sempre a fizeram se sentir nervosa, mas ontem à noite, tinha quase parecido como se as sombras quisessem algo dela. E então houve aquela outra coisa, a força levitante que a libertou.
— Que cara é essa? — Gabbe perguntou, inclinando sua cabeça e acenando sua mão no ar na frente do rosto de Luce. — No que está pensando?
Luce não sabia como assimilar a bondade repentina de Gabbe com ela. Assistente de enfermeira não parecia exatamente o tipo de emprego em que Gabbe seria voluntária, e não era como se houvesse algum cara por aqui cuja atenção ela pudesse monopolizar. Gabbe nem mesmo parecia gostar de Luce. Ela não apareceria aqui por vontade própria, apareceria?
Mas mesmo tão bondosa quanto Gabbe estava sendo, não havia jeito de explicar o que tinha acontecido na noite passada. A reunião pavorosa e inexprimível no corredor. A sensação surreal de ser impulsionada para frente por aquela escuridão. A figura estranha e atraente da luz.
— Onde o Todd está? — Luce perguntou, lembrando-se dos olhos amedrontados do rapaz.
Ela perdera seu aperto sobre ele, saiu voando, e então...
A cortina de papel foi repentinamente atirada para trás, e ali estava Ariane, usando patins em linha e um uniforme vermelho-e-branco cor de doce listrado. Seu curto cabelo preto estava retorcido em uma série de nós no alto da sua cabeça. Ela rolou, carregando uma bandeja na qual estavam três cocos verdes com canudos de festa em formato de guarda-chuva de cor neon.
— Agora me deixa entender — ela disse numa voz rouca, nasal. — Ponha o canudo no coco e beba ambos... opa, caras azedas. O que estou interrompendo?
Ariane parou as rodas no pé da cama de Luce. Ela estendeu uma batida de coco com um guarda-chuva rosa balançando.
Gabbe pulou e agarrou o copo primeiro, dando uma cheirada em seu conteúdo.
— Ariane, ela acabou de passar por um trauma — ela repreendeu. — E para sua informação, o que você interrompeu foi o assunto Todd.
Ariane jogou seus ombros para trás.
— Justamente o por que dela precisar de algo potente — ela debateu, segurando a bandeja possessivamente enquanto ela e Gabbe envolviam-se em um concurso de encarar.
— Ótimo — Ariane disse, olhando para longe de Gabbe. — Darei a ela sua velha bebida chata.
Ela deu a Luce o copo com o canudo azul.
Luce devia estar em algum tipo de atordoamento pós-traumático. Onde é que elas poderiam ter conseguido esse negócio? Batida de coco com guarda-chuvinhas coloridos? Era como se ela tivesse adormecido no reformatório e acordado em um hotel cinco estrelas.
— Onde vocês conseguiram todas essas coisas? — ela perguntou. — Quero dizer, obrigada, mas...
— Nós unimos nossos recursos quando precisamos — Ariane respondeu. — Roland ajudou.
As três se sentaram bebendo de forma barulhenta as bebidas geladas e doces por um momento, até que Luce não conseguisse aguentar mais.
— Então, voltando para o Todd...?
— Todd — Gabbe repetiu, limpando sua garganta. — O negócio é que... ele simplesmente inalou muito mais fumaça do que você, doçura...
— Ele não inalou — Ariane cuspiu. — Ele quebrou o pescoço.
Luce arfou, e Gabbe bateu em Ariane com sua bebida de guarda-chuva.
— O quê? — Ariane indagou. — Luce pode aguentar isso. Se ela vai descobrir eventualmente, por que adoçar a verdade?
— A evidência ainda é inconclusiva — Gabbe disse, sublinhando as palavras.
Ariane deu de ombros.
— Luce estava lá, ela deve ter visto...
— Eu não vi o que aconteceu com ele. Nós estávamos juntos e então, de alguma forma, fomos separados. Eu tive um mau pressentimento, mas eu não sabia... — ela sussurrou. — Então ele...
— Se foi desse mundo — Gabbe disse suavemente.
Luce fechou seus olhos. Um frio, que não tinha nada a ver com a bebida, se espalhou por ela. Ela se lembrou do Todd batendo freneticamente nas paredes, sua mão suada apertando a dela quando as sombras rugiram sobre eles, o momento terrível quando os dois foram separados e ela ficara muito chocada para ir até ele.
Ele tinha visto as sombras. Luce estava certa disso agora. E ele morrera.
Depois de Trevor ter morrido, nenhuma semana se passou sem uma carta de ódio encontrando seu caminho até Luce. Seus pais começaram a tentar vetar o correio antes que ela pudesse ler as coisas venenosas, mas muito ainda chegava a ela. Algumas cartas eram escritas à mão, algumas eram digitadas, uma tinha até sido cortada de letras de revistas, estilo bilhete de resgate.
Assassina, bruxa. Eles a tinham chamado de nomes cruéis o bastante para encher uma página de recados, causado agonia o bastante para mantê-la trancada dentro de casa durante todo o verão.
Ela pensara que tinha feito tanto para se afastar daquele pesadelo: deixando seu passado para trás quando ela foi para a Sword & Cross, concentrando-se em suas aulas, fazendo amigos... ah Deus.
Ela inspirou profundamente.
— E quanto a Penn? — ela perguntou, mordendo seu lábio.
— Penn está ótima — Ariane disse. — Ela é totalmente matéria de primeira página, testemunha do incêndio. Tanto ela quanto a Senhorita Sophia saíram, cheirando como um poço de fumaça do leste da Geórgia, mas ainda assim bem.
Luce soltou sua respiração. Pelo menos havia uma boa notícia. Mas sob os lençóis finos como papel fino da enfermaria, ela estava tremendo. Logo, certamente os mesmos tipos de pessoas que foram atrás dela após a morte de Trevor iriam atrás dela novamente. Não apenas os que escreveram as cartas zangadas. Dr. Sanford. Seu agente da condicional. A polícia.
Bem como antes, seria esperado que ela tivesse a história toda reunida. Que lembrasse de cada detalhe mínimo. Mas é claro que, exatamente como antes, ela não seria capaz. Numa hora, ele estivera ao seu lado, apenas os dois. Na seguinte...
— Luce!
Penn irrompeu pela sala, segurando um grande balão de hélio marrom. Tinha a forma de um band-aid e dizia Arranca em letras cursivas azuis.
— O que é isso? — ela perguntou, olhando para as outras três garotas criticamente. — Algum tipo de festa do pijama?
Ariane tinha desamarrado seus patins e subido na minúscula cama ao lado de Luce. Ela estava segurando os dois copos e deitando sua cabeça no ombro de Luce. Gabbe estava pintando esmalte transparente na mão livre de Luce.
— É — Ariane gargalhou. — Junte-se a nós, Penny. Estávamos prestes a jogar Verdade ou Desafio. Deixaremos você ir primeiro.
Gabbe tentou encobrir sua risada com um delicado espirro falso. Penn colocou suas mãos nos quadris. Luce se sentiu mal por ela, e também um pouco assustada. Penn pareceu bastante feroz.
— Um dos nossos colegas morreu na noite passada — Penn enunciou cuidadosamente. — E Luce poderia ter se machucado muito. — Ela balançou sua cabeça. — Como vocês podem brincar numa hora como essa? — ela fungou. — Isso é álcool?
— Ohhh — Ariane disse, olhando para Penn, seu rosto sério. — Você gostava dele, não gostava?
Penn pegou um travesseiro da cadeira atrás dela e jogou-o em Ariane. O negócio era que Penn estava certa. Era estranho que Ariane e Gabbe estivessem tomando a morte de Todd como algo quase leve. Como se elas vissem esse tipo de coisa acontecer o tempo todo. Como se isso não as afetasse da forma como afetava Luce. Mas elas não podiam saber o que Luce sabia sobre os últimos momentos de Todd. Elas não poderiam saber por que ela se sentia tão enojada agora. Ela deu um tapinha no pé da cama para Penn e entregou-lhe o que restava de sua bebida.
— Nós saímos pelos fundos, e então... — Luce não conseguia nem mesmo dizer as palavras. — O que aconteceu com você e a Senhorita Sophia?
Penn olhou desconfiadamente para Ariane e Gabbe, mas nenhuma se movimentou para ser insolente. Penn desistiu e se sentou na beirada da cama.
— Eu simplesmente fui lá perguntar a ela sobre... — Ela olhou para as outras duas garotas novamente, então lançou a Luce um olhar astucioso. — A pergunta que eu tinha. Ela não sabia a resposta, mas queria me mostrar outro livro.
Luce tinha esquecido tudo sobre a busca dela e de Penn na noite passada. Isso parecia tão distante e tão irrelevante depois do que havia acontecido.
— Nós nos afastamos dois passos da mesa da Senhorita Sophia — Penn continuou — e houve essa explosão maciça de luz de canto de olho. Quero dizer, li sobre combustão espontânea, mas isso foi...
Todas as três outras garotas estavam se inclinando para a frente nesse momento. A história de Penn era notícia de primeira página.
— Algo deve ter começado isso — Luce falou, tentando imaginar a mesa da Senhorita Sophia em sua mente. — Mas eu não acho que havia mais alguém na biblioteca.
Penn sacudiu a cabeça.
— Não havia. A Senhorita Sophia disse que um fio deve ter dado curto-circuito em uma lâmpada. O que quer que tenha acontecido, o fogo tinha bastante combustível. Todos os documentos dela se foram rapidamente.
Ela estalou os dedos.
— Mas ela está bem? — Luce perguntou, dedilhando a bainha parecida com papel de sua camisola de hospital.
— Perturbada, mas bem. Os extintores de incêndio foram ligados eventualmente, mas acho que ela perdeu um bando das coisas dela. Quando lhe contaram o que aconteceu com o Todd, foi quase como se ela estivesse dormente demais até mesmo para entender.
— Talvez estejamos todos dormentes demais para entender — Luce concordou. Dessa vez Gabbe e Ariane assentiram de cada lado dela. — Os... os pais do Todd sabem? — ela perguntou, querendo saber como diabos ela explicaria para seus próprios pais o que tinha acontecido.
Ela os imaginou preenchendo papelada no salão. Será que eles iriam querer vê-la? Será que eles conectariam a morte do Todd com a de Trevor... e traçariam ambas as histórias terríveis até ela?
— Eu ouvi Randy no telefone com os pais de Todd — Penn disse. — Eu acho que eles vão processar. O corpo dele está sendo mandado de volta para a Flórida mais tarde hoje.
Só isso? Luce engoliu em seco.
— A Sword & Cross vai fazer um serviço memorial para ele na quinta — Gabbe murmurou. — Justin e eu vamos ajudar a organizar.
— Justin? — Luce repetiu antes que pudesse se controlar.
Ela olhou para Gabbe, e mesmo em seu estado abatido pelo luto, ela não conseguiu evitar reverter à sua imagem inicial da garota: uma sedutora loira de lábios rosa.
— Foi ele quem achou vocês dois na noite passada — Gabbe explicou. — Ele carregou você da biblioteca até o escritório da Randy.
Justin a tinha carregado? Tipo... seus braços em volta do corpo dela? O sonho voltou correndo e a sensação de voar – não, de flutuar – a inundou. Ela se sentiu amarrada demais em sua cama. Ela sentia falta do mesmo céu, da chuva, da boca dele, dos dentes dele, da língua dele fundindo com a dela novamente. Seu rosto ficou quente, primeiro com desejo, então com a impossibilidade agonizante de tudo aquilo acontecer enquanto ela estivesse acordada. Aquelas asas gloriosas e cegantes não eram as únicas coisas fantásticas nesse sonho. O Justin da vida real somente a carregara para a enfermaria. Ele nunca iria querer ela, nunca a pegaria em seus braços, não desse jeito.
— Hã, Luce, você está bem? — Penn perguntou.
Ela estava abanando as bochechas coradas de Luce com sua bebida de guarda-chuva.
— Ótima.
Era impossível afastar aquelas asas de sua mente. Esquecer da sensação do rosto dele sobre o dela.
— Ainda estou me recuperando, suponho.
Gabbe deu um tapinha em sua mão.
— Quando ficamos sabendo sobre o que tinha acontecido, nós bajulamos a Randy para nos deixar vir visitar — ela disse, revirando seus olhos. — Não queríamos que você acordasse sozinha.
Houve uma batida na porta. Luce esperava ver os rostos ansiosos de seus pais, mas ninguém entrou. Gabbe ficou de pé e olhou para Ariane, que não fez menção alguma de se levantar.
— Fiquem aqui. Eu lidarei com isso.
Luce ainda estava sobrepujada pelo que tinham lhe contado sobre Justin. Mesmo não fazendo sentido algum, ela queria que fosse ele fora daquela porta.
— Como ela está? — uma voz perguntou em um sussurro. Mas Luce a ouviu. Era ele.
Gabbe murmurou algo de volta.
— Que congregação toda é essa? — Randy rosnou do lado de fora da sala.
Luce sabia, com o coração afundado, que isso significava que as horas de visita tinham acabado.
— Quem quer que tenha me convencido a deixar vocês, seus pestinhas, virem junto recebe detenção. E não, Bieber, não aceitarei flores como suborno. Todos vocês, entrem na minivan.
Ouvindo a voz da mulher, Ariane e Penn se encolheram, então correram para esconder os copos debaixo da cama. Penn enfiou os guarda-chuvas da bebida dentro de seu estojo e Ariane espirrou um forte perfume almíscar de baunilha no ar. Ela deu um pedaço de chiclete de hortelã para Luce.
Penn engasgou numa nuvem flutuante de perfume, então se inclinou rapidamente para Luce e sussurrou:
— Assim que estiver boa de nova, acharemos o livro. Acho que será bom para nós duas ficarmos ocupadas, tirar nossas mentes das coisas.
Luce apertou a mão de Penn em agradecimento e sorriu para Ariane, que parecia ocupada demais amarrando o cadarço de seus patins para ter ouvido.
Foi então que Randy empurrou com tudo a porta.
— Mais congregação! — ela gritou. — Inacreditável.
— Nós estávamos apenas... — Penn começou a dizer.
— Indo embora — Randy terminou por ela.
Ela tinha um buquê de peônias brancas selvagens em sua mão.
Estranho. Elas eram as favoritas de Luce. E era tão difícil achá-las florescendo por aqui. Randy abriu um armário debaixo da pia e fuçou por um minuto, então puxou um vaso pequeno e empoeirado. Ela o encheu com a água turva da torneira, colocou as peônias rudemente dentro, e as assentou na mesa ao lado de Luce.
— São dos seus amigos que irão todos se despedir agora.
A porta estava largamente aberta, e Luce conseguia ver Justin encostado contra a moldura. Seu queixo estava levantado e seus olhos cor de mel estavam nublados com preocupação. Ele encontrou o olhar de Luce e deu-lhe um pequeno sorriso. Quando ele tirou seus cabelos de perto de seus olhos, Luce conseguiu ver um pequeno corte vermelho escuro em sua testa.
Randy dirigiu Penn, Ariane e Gabbe porta afora. Mas Luce não conseguia tirar seus olhos de Justin. Ele ergueu uma mão no ar e balbuciou o que ela achava ser Sinto muito, logo antes de Randy empurrá-los para fora.
— Espero que eles não tenham te deixado exausta — Randy disse, espreitando na entrada com um franzir de testa antipático.
— Ah não!
Luce sacudiu sua cabeça, percebendo o quanto ela tinha aprendido a contar com a lealdade de Penn, e a maneira peculiar de Ariane animar até mesmo o humor mais sombrio. Gabbe, também, tinha sido realmente bondosa com ela. E Justin, embora ela mal o tenha visto, tinha feito mais para restaurar sua paz de espírito do que jamais saberia. Ele tinha vindo para checá-la. Ele estivera pensando nela.
— Bom — Randy disse. — Porque o horário da visita ainda não acabou.
Novamente, o coração de Luce acelerou enquanto ela esperava ver seus pais. Mas houve apenas um ligeiro ruído no chão de linóleo, e logo Luce viu a minúscula moldura da Senhorita Sophia.
Um xale de outono colorido estava sobre seus ombros magros, e seus lábios estavam pintados de um vermelho profundo para combinar. Atrás dela andava um homem baixo e careca de terno e dois policiais, um gordinho e um magro, ambos com linhas capilares retrocedendo e braços cruzados.
O policial gordinho era mais jovem. Ele sentou-se na cadeira ao lado de Luce, então – percebendo que ninguém mais tinha se mexido para sentar – levantou-se novamente recruzou os braços.
O careca deu um passo a frente e ofereceu sua mão à Luce.
— Sou o Mr. Schultz, advogado da Sword & Cross — Luce apertou sua mão duramente. — Esses policiais simplesmente vão te fazer algumas perguntas. Nada a ser usado em um tribunal, apenas um esforço para corroborar os detalhes do acidente...
— E eu insisti em estar aqui durante o questionamento, Lucinda — a Senhorita Sophia acrescentou, indo para a frente para acariciar o cabelo de Luce. — Como está, querida? — ela sussurrou. — Em estado amnéstico de choque?
— Estou bem...
Luce cortou quando avistou mais duas figuras na entrada. Ela quase caiu em prantos quando viu a cabeça escura e encaracolada de sua mãe e os grandes óculos de couraça de tartaruga de seu pai.
— Mãe — ela sussurrou, baixo demais para alguém mais ouvir. — Pai.
Eles se apressaram em direção à cama, jogando seus braços em volta dela e apertando suas mãos. Ela queria abraçá-los tanto, mas se sentia fraca demais para fazer muito mais do que ficar parada e absorver o conforto familiar do toque deles. Os olhos deles pareciam tão assustados quanto ela se sentia.
— Doçura, o que aconteceu? — sua mãe perguntou.
Ela não conseguia dizer uma palavra.
— Eu disse a eles que você é inocente — a Senhorita Sophia disse, virando-se para lembrar os policiais. — Ao diabo com semelhanças estranhas.
Claro que eles tinham o acidente de Trevor registrado, e é claro que os policiais iriam encontrá-lo... notavelmente devido à morte do Todd. Luce tinha prática o bastante com os policiais para saber que ela apenas iria deixá-los frustrados e irritados.
O policial magro tinha costeletas longas que estavam ficando grisalhas. O arquivo aberto dela na mão dele parecia exigir sua atenção total, porque nenhuma vez ele olhou para ela.
— Srta. Price — ele disse com um lento sotaque sulista. — Por que você e o Sr. Hammond estavam sozinhos na biblioteca numa hora tão tardia quando todos os outros estudantes estavam numa festa?
Luce olhou para seus pais. Sua mãe estava mordiscando seu batom. O rosto do seu pai estava tão branco quanto o lençol da cama.
— Eu não estava com o Todd — ela respondeu, não entendendo a linha de questionamento. — Eu estava com a Penn, minha amiga. E a Senhorita Sophia estava lá. Todd estava lendo sozinho e quando o incêndio começou, eu me perdi da Penn, e Todd foi o único que consegui achar.
— O único que conseguiu achar... para fazer o quê?
— Espera um minuto — o Sr. Schultz deu um passo para frente para interromper o policial. — Isso foi um acidente, devo lembrar-lhe. Você não está interrogando um suspeito.
— Não, eu quero responder — Luce disse.
Havia tantas pessoas nesse minúsculo quarto que ela não sabia para onde olhar. Ela olhou o policial.
— O que quer dizer?
— Você é uma pessoa nervosa, Srta. Price? — Ele agarrou a pasta. — Você se definiria como solitária?
— Já chega — seu pai interrompeu.
— Sim, Lucinda é uma estudante séria — a Senhorita Sophia acrescentou. — Ela não tinha nenhuma má vontade em relação a Todd Hammond. O que aconteceu foi um acidente, nada mais.
O policial olhou em direção a porta aberta, como se desejando que a Senhorita Sophia se deslocasse para fora dela.
— Sim, madame. Bem, com esses casos de reformatório, dar o benefício da dúvida nem sempre se é o mais responsável...
— Eu lhe contarei tudo o que sei — Luce disse, embolando seu lençol em seu punho. — Eu não tenho nada a esconder.
Ela os conduziu da melhor maneira que conseguiu, falando devagar e claramente para que não levantasse novas perguntas para seus pais, para que os policiais pudessem tomar nota. Ela não se deixou escorregar para a emoção, o que parecia ser exatamente o que todos estavam esperando.
E – deixando de fora a aparição das sombras – a história fazia bastante sentido. Eles tinham corrido para a porta traseira. Tinham encontrado a saída no final de um longo corredor. A escada desprendeu-se rapidamente, inclinando-se para longe da base, e ela e Todd ambos estiveram correndo com tanta força, não conseguiram se impedir de tombar escada abaixo. Ela o perdera de vista, batera sua cabeça forte o bastante para acordar aqui doze horas depois. Isso era tudo de que ela se lembrava.
Ela deixou a eles muito pouco que se discutir. Havia apenas a lembrança verdadeira da noite para que ela combatesse – por conta própria.
Quando acabou, o Sr. Schultz deu aos policiais uma inclinação de cabeça do tipo estão-satisfeitos?, e a Senhorita Sophia sorriu de alegria para Luce, como se juntas elas tivessem tido sucesso em algo impossível. A mãe de Luce soltou um longo suspiro.
— Iremos refletir sobre isso na delegacia — o policial magro disse, fechando o arquivo de Luce com tal resignação que parecia que ele queria ser agradecido por seus serviços.
Então os quatro saíram da sala e ela ficou sozinha com seus pais.
Ela lançou-lhes seu melhor olhar me-levem-para-casa. O lábio de sua mão tremeu, mas seu pai só engoliu em seco.
— Randy vai te levar de volta para a Sword & Cross essa tarde — ele disse. — Não pareça tão chocada, doçura. O médico disse que você estava bem.
— Mais do que bem — sua mãe acrescentou, mas ela parecia incerta.
Seu pai deu-lhe um tapinha no braço.
— Te vemos no sábado. Apenas mais alguns dias.
Sábado. Ela fechou seus olhos. Dia dos Pais. Ela estivera ansiando-o desde o momento que chegara na Sword & Cross, mas agora tudo estava tingido pela morte do Todd. Seus pais pareciam quase ansiosos para deixá-la. Eles tinham um jeito de não querer exatamente lidar com as realidades de ter uma filha em um reformatório. Eles eram tão normais. Ela não podia realmente culpá-los.
— Descanse um pouco agora, Luce — seu pai aconselhou, abaixando-se para beijá-la sua testa. — Você teve uma noite longa e difícil.
— Mas...
Ela estava exausta. Ela fechou seus olhos brevemente e quando os abriu, seus pais já estavam acenando da entrada.
Ela arrancou uma rechonchuda flor branca do vaso e a levou lentamente até seu rosto, admirando as folhas profundamente lobuladas e as pétalas frágeis, as gotas ainda úmidas de néctar dentro de seu centro. Ela respirou o odor suave e aromático da flor.
Tentou imaginar o modo como teriam parecido nas mãos de Justin. Tentou imaginar onde ele as tinha conseguido, e o que tinha estado em sua mente.
Fora uma escolha tão estranha de flor. Peônias selvagens não floresciam no pantanal da Geórgia. Elas nem aderiam ao solo no jardim do seu pai em Thunderbolt. E, ainda, essas não pareciam quaisquer peônias que Luce já tivesse visto. As flores eram tão grandes quanto palmas das mãos vertidas em conchas, e o cheiro a lembrava de algo que ela não conseguia exatamente identificar.
Sinto muito, Justin dissera. Só que Luce não conseguia entender exatamente pelo o quê.

Continua...

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Fallen: Capítulo 10 "Onde há fumaça"

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— O que você está esperando? — Penn perguntou apenas um segundo depois que Justin saiu com Roland. — Vamos.
Ela puxou a mão de Luce.
— Para onde? — perguntou Luce.
Seu coração continuava batendo forte pela conversa com Justin – e da visão dele se afastando. A forma em que seus esculpidos ombros cortavam o corredor fazia parecer maior do que o próprio Justin.
Penn bateu levemente em um lado da cabeça de Luce.
— Oi? Para a biblioteca, como eu disse a você em meu bilhete... — ela captou a expressão em branco de Luce. — Você não recebeu nenhum dos meus bilhetes? — Ela bateu a perna, frustada. — Mas eu entreguei a Todd para passar ao Cam, para passar pra você.
— Correeeeio.
Cam se meteu na frente de Penn e apresentou a Luce dois pedaços de papel dobrado colocados entre o indicador e o dedo médio.
— Me dê um descanso. Teu cavalo morreu de esgotamento no caminho? — Penn bufou, recolhendo os bilhetes. — Eu te dei estes faz uma hora. Por que levou tanto tempo? Você não os leu...
— Claro que não — Cam levou uma mão a seu peito largo, ofendido. Ele usava um grosso anel preto em seu dedo médio. — Se você recorda, Luce se meteu em problemas por trocar bilhetes com Molly...
— Eu não estava trocando bilhetes com Molly...
— Não me importa — disse Cam, pegando os bilhetes da mão de Penn e entregando-os finalmente a Luce. — Eu só estava olhando por seus interesses. Esperando a oportunidade certa.
— Bem, obrigada — Luce meteu os bilhetes em seu bolso e deu de ombros para Penn como se dissesse “tanto faz.”
— Falando de esperar o momento certo — ele continuou. — Eu estava fora no outro dia e vi isto.
Ele tirou uma pequena caixa de jóias de veludo vermelho e o manteve aberto para que Luce visse. Penn deu um puxão no ombro de Luce com a intenção de dar uma olhada.
Dentro, uma fina corrente de ouro que envolvia um pequeno pingente circular com uma linha esculpida no centro e uma pequena cabeça de serpente na ponta.
Luce olhou para ele. Estava brincando com ela?
Ele tocou no pingente.
— Pensei que, depois do outro dia... queria te ajudar a enfrentar seu medo — ele disse em um tom quase nervoso, com medo de que ela não fosse aceitar.
Ela deveria aceitá-lo?
— Só uma brincadeira. Eu gostei. É único, me lembrou você.
Era único. E muito lindo, e isso fez Luce se sentir estranhamente indigna.
— Você foi às compras? — Luce se encontrou perguntando, porque era mais fácil falar de como Cam havia deixado o campus do que estar se perguntando Por que eu? — Pensei que uma das normas da escola é que estamos todos presos aqui.
Cam levantou o queixo ligeiramente e sorriu com os olhos.
— Há maneiras — disse em voz baixa. — Eu te mostrarei um dia. Poderia te mostrar... esta noite?
— Cam, querido — disse uma voz atrás dele.
Era Gabbe, batendo-lhe no ombro. Uma parte fina da frente de seu cabelo era uma trança francesa e presa até atrás de sua orelha, como uma perfeita pequena bandana. Luce a olhou com ciúmes.
— Preciso de sua ajuda com os preparativos — Gabbe ronronou.
Luce olhou ao seu redor e percebeu que eram as únicas quatro pessoas que ficaram na sala de aula.
— Vou dar uma pequena festa em meu quarto mais tarde — Gabbe anunciou, apertando o queixo no ombro de Cam para dirigir-se a Luce e a Penn. — E todos estão indo, certo?
Gabbe, cuja boca parecia sempre pegajosa pelo brilho labial, cujo os cabelos loiros nunca paravam de deixar sua marca no segundo que um cara começava a falar com Luce. Mesmo que Justin tenha dito que não havia nada entre eles, Luce sabia que ela nunca iria ser amiga dessa garota.
Então outra vez, você não tem que gostar de alguém para ir a sua festa, especialmente quando certamente outra pessoa que você gosta, provavelmente vai está lá... Ou ela deveria aceitar a oferta de Cam? Ele estava realmente sugerindo que eles escapassem?
Só ontem, um rumor tinha voado por toda a classe quando Jules e Phillip, o casal língua furada, não apareceram para a aula da Srta. Sophia. Aparentemente, eles tinham tentado sair do campus no meio da noite, para um encontro secreto que saiu errado – e agora estavam em algum tipo de confinamento solitário, cuja localização ainda não era conhecida por Penn.
O mais estranho de tudo foi a Srta. Sophia – que geralmente não tolera os sussurros – não calou os estudantes que fofocavam loucamente durante a aula. Era quase como se quisesse que os estudantes imaginassem o pior castigo possível por quebrar alguma de suas regras ditatoriais.
Luce engoliu em seco, olhando para Cam. Ele ofereceu seu cotovelo, ignorando inteiramente Gabbe e Penn.
— O que me diz, garota? — ele perguntou, soando tão encantadoramente um clássico de Hollywood que Luce se esqueceu de tudo o que tinha acontecido a Jules e a Phillip.
— Desculpe — Penn interrompeu, respondendo a ambos e afastando Luce do cotovelo dele. — Mas nós temos outros planos.
Cam olhou para Penn como se estivesse tentando descobrir de onde ela tinha vindo tão repentinamente. Ele fazia Luce se sentir como uma versão melhor, mais calma, de si mesma. E tinha uma maneira de cruzar em seu caminho no momento certo depois que Justin a tinha feito se sentir exatamente o oposto. Mas Gabbe ainda continuava flutuando ao lado dele, e o aperto de Penn era cada vez mais forte, então finalmente Luce só agitou a mão que ainda estava segurando Cam.
— Hum, talvez da próxima vez! Obrigada pelo colar.
Deixando Cam e Gabbe confusos na sala atrás delas, Penn e Luce saíram de Agustine. Era assustador estar sozinha no escuro edifício tão tarde, e Luce podia dizer pelos ruído apressador das sandálias de Penn nas escadas que ela sentia o mesmo também.
Do lado de fora, havia vento. Uma coruja cantava em sua pequena palmeira. Quando elas passaram sob os carvalhos ao lado do edifício, ganchos desordenados de musgos espanhol tocaram-nas como emaranhados de fios de cabelos.
— Talvez na próxima vez? — Penn imitou a voz de Luce. — O que foi isso?
— Nada... eu não sei — Luce queria mudar de assunto. — Você fez um som muito elegante, Penn — ela disse, rindo enquanto caminhava ao longo do pátio.
— Outros planos... pensei que você se divertiu na festa da semana passada.
— Se você alguma vez andou lendo minha última correspondência, verá por que temos coisas mais importantes em nosso prato.
Luce esvaziou seus bolsos, descobrindo cinco M&M’s não-consumidos, e compartilhando-os com Penn, que fez uma expressão muito Penn – como dizendo que esperava que viessem de um lugar limpo, mas os comeu de todo jeito.
Luce abriu o primeiro bilhete de Penn, no qual parecia uma cópia da página de um dos arquivos da sala de arquivos subterrâneo:
Gabrielle Givens
Cameron Briel
Lucinda Prince
Todd Hammond
LOCALIZAÇÕES ANTERIORES: Todos no Nordeste, com exceção de T. Hammond (Orlando, Flórida)
Ariane Alter
Justin Bieber
Mary Margaret Zane
LOCALIZAÇÕES ANTERIORES: Los Angeles, Califórnia
O grupo de Lucinda foi anotado que chegou em Sword & Cross em 15 de setembro deste ano. O segundo grupo tinha chegado em 15 de março, três anos antes.
— Quem é Mary Margaret Zane? — Luce perguntou, apontando.
— Apenas a muito virtuosa Molly — Penn respondeu.
— O nome de Molly é Mary Margaret? Não é de se estranhar que é tão irritada com o mundo — Luce comentou. — Então, onde você consegue tudo isso?
— Peguei de uma das caixas que a Srta. Sophia derrubou no outro dia — disse Penn. — É a letra da Srta. Sophia.
Luce olhou pra ela.
— O que isso significa? Por que ela tinha a necessidade de guardar isso? Pensava que eles tinham todas as nossas fichas de chegada separadas em nossos arquivos.
— Eles tem. Não consigo entender isso também — Penn respondeu. — E eu quero dizer, que embora você se apresentasse ao mesmo tempo que os outros garotos, não é como se você tivesse algo em comum com eles.
— Eu não poderia ter menos em comum com eles — Luce disse, prevendo o olhar recatado de Gabbe sempre colado ao seu rosto.
Penn coçou o queixo.
— Mas quando Ariane, Molly e Justin apareceram, eles já se conheciam. Creio que eram do mesmo Centro de Recuperação em Los Angeles.
Em algum lugar existia uma chave para a história de Justin. Tinha que ser para ele algo mais que um Centro de Recuperação na Califórnia. Mas pensando em como seria sua reação – que desaparecesse ao horror que Luce poderia ter o interesse de saber algo sobre ele – bem, a fez sentir que tudo o que ela e Penn estavam fazendo era inútil e imaturo.
— Qual é o ponto de tudo isso? — Luce perguntou, de repente irritada.
— Não posso imaginar por que a Srta. Sophia estaria conferindo toda essa informação. Embora a Srta Sophia tenha chegado a Sword & Cross o mesmo dia que Ariane, Justin e Molly... — a voz de Penn abaixou. — Quem sabe? Talvez isso não signifique nada. Aqui mencionam só um pouco de Justin nos arquivos, imaginei que deveria te mostrava tudo o que encontrasse. Por tanto, bilhete B.
Ela apontou para o segundo bilhete na mão de Luce.
Luce suspirou. Parte dela queria deixar a busca e parar de se sentir envergonhada sobre Justin. Outra parte insistente dela ainda ansiava por conhecê-lo melhor... o qual, estranhamente, era muito mais fácil de fazer quando ele não estava tecnicamente presente para lhe dar novos motivos para sentir-se envergonhada.
Ela olhou para o bilhete, uma cópia de um cartão antigo da biblioteca.
Bieber, D. Os Observadores: Mito Medieval
Europa. Seraphim Press, Roma, 1755.
Número de Identificação: R999.318 CR1
— Parece que um dos antepassados de Justin foi um estudioso — Penn falou, lendo por cima do ombro de Luce.
— Isso deve ter sido o que ele quis dizer — Luce disse em voz baixa. Olhou para Penn — ele me disse que o estudo da religião estava em sua família. Isto deve ser o que ele quis dizer.
— Pensei que ele era órfão...
— Não pergunte — Luce disse, agitando sua mão. — É um tema delicado para ele — ela passou o dedo sobre o título do livro. — O que um observador?
— Só há uma maneira de descobrir. Embora possamos viver para lamentar. Porque isto possivelmente parece com o livro mais chato de todos. No entanto — ela acrescentou, batendo seus dedos em sua camisa. — Tomei a liberdade de checar o catálogo. O livro deve estar nas estantes. Você pode me agradecer mais tarde.
— Você é boa.
Luce sorriu. Estava ansiosa por chegar à biblioteca. Se alguém na família de Justin tinha escrito um livro, não poderia ser chato. Ou não para Luce, de qualquer modo. Mas então ela olhou outra coisa que tinha em sua mãos. A caixa aveluda de jóias de Cam.
— O que você acha que isso significa? — ela perguntou a Penn, enquanto começava a caminhar até o mosaico de azulejos das escadas da biblioteca.
Penn deu de ombros.
— Seus sentimentos sobre as serpentes são...
— O ódio, a agonia, a paranoia extrema e o desgosto — Luce listou.
— Talvez seja como... ok, eu costumava ter medo de cactos. Não podia nem me aproximar deles... não ria, alguma vez foi picada por uma dessas coisas? Permanecem em sua pele durante vários dias. Mesmo assim, um ano, no meu aniversário, meu pai me presenteou com onze vasinhos de cactos. A principio eu queria desfazer-me delas. Mas então, você sabe, me acostumei com elas. Deixei de dar a volta a cada momento que eu estava próximo de um. No final, superei totalmente.
— Então você está me dizendo que o presente de Cam é na verdade muito suave.
— Eu acho — disse Penn. — Mas se eu soubesse que ele estava louco por ti, eu não teria confiado nossa correspondência particular a ele. Desculpe por isso.
— Ele não está louco por mim — Luce começou a dizer, tocando o pingente de ouro dentro da caixa, imaginando como seria o aspecto contra sua pele, ela não tinha contado nada a Penn sobre seu dia de campo com Cam, porque – bem, ela realmente não sabia o por que. Isto tinha haver com Justin, e como Luce ainda não sabia se queria estar ou não estar – com qualquer um deles.
— Há — Penn falou. — O que significa que você gosta um pouco dele! Traindo Justin. Eu não posso continuar com você e seus homens.
— Como se estivesse acontecendo algo com qualquer um deles — Luce falou com tristeza. — Acha que Cam leu os bilhetes?
— Se ele fez isso e ainda te deu esse colar, então ele realmente gosta de você.
Elas entraram na biblioteca e as pesadas portas duplas deram um golpe surdo atrás delas. O som resoou na sala. A Srta. Sophia levantou a vista das montanhas de papéis que cobriam sua mesa à fraca luz.
— Oh, oi, garotas — ela cumprimentou, sorrindo de maneira tão ampla que Luce se sentia culpada de novo pela bagunça que aconteceu durante sua aula. — Espero que tenham desfrutado de minha breve sessão de estudos.
— Muito — Luce assentiu com a cabeça, embora não tenha escrito nada a respeito. — Nós viemos aqui para revisar algumas coisas antes do exame.
— Isso mesmo — interveio Penn. — Você nos inspirou.
— Que maravilhoso! — Sussurrou Srta. Sophia através de sua papelada. — Tenho uma nova lista de leitura em alguma parte. Ficarei feliz em fazer uma cópia.
— Genial — mentiu Penn, dando a Luce um pequeno empurrão até as estantes. — Nós a deixaremos saber se precisarmos.
Do outro lado da mesa da Srta. Sophia, a biblioteca estava em silêncio. Luce e Penn seguiam olhando os números de identificação enquanto passavam de estante em estante até os livros de religião. As lâmpadas que poupavam energia detectavam o movimento e se acendiam a cada vez que cruzavam um corredor, mas só a metade delas funcionavam. Luce percebeu que Penn ainda segurava seu braço, e então percebeu que não queria que ela soltasse.
As garotas chegaram a sessão de estudos que em geral estava lotada, onde só tinha uma lâmpada de mesa queimada. Todo mundo devia estar na festa de Gabbe. Todo mundo exceto Todd. Ele tinha os pés levantados na cadeira em frente a ele e parecia estar lendo um atlas mundial do tamanho de uma mesa de café. Quando as garotas caminhavam até ele, ele as olhou com uma expressão que queria dizer que ou estava muito bem sozinho ou ligeiramente irritado por ter sido perturbado.
— Vocês, garotas, estão atrasadas — disse categoricamente.
— Assim como você — replicou Penn, mostrando a língua dramaticamente.
Quando tinham posto algumas estantes entre elas e Todd, Luce arqueou uma sobrancelha a Penn.
— O que foi isso?
— O quê? Ele paquera comigo.
Ela cruzou os braços sobre peito e soprou um cacho de seu cabelo marrom dos olhos.
— Como assim? Você está na quarta série? — Luce brincou.
Penn levantou o dedo indicador para Luce com uma intensidade que teria feito Luce saltar se ela não estivesse rindo muito.
— Você conhece mais alguém que quer mergulhar na história da família de Justin Bieber com você? Acho que não. Deixe-me em paz.
Até então, tinham chegado ao canto traseiro da biblioteca, onde todos os 999 livros se organizavam ao longo de uma única estante de cor metal. Penn se agachou e traçou a lombada dos livros com seus dedos, Luce sentiu um tremor, como se alguém percorresse um dedo pelo seu pescoço. Ela esticou a cabeça ao redor e viu uma nuvem de fumaça cinza. Não negra, como eram as sombras em geral, senão mais leve, mas fina. Mas igualmente indesejada.
Ela observou com os olhos arregalados, com a sombra estendida em um longo traço diretamente sobre a cabeça de Penn. Desceu lentamente, como uma agulha enfiada e Luce não queria pensar no que poderia acontecer se tocasse em sua amiga. No outro dia no ginásio tinha sido a primeira vez que a sombra a tinha tocado – e ela ainda se sentia violada, quase suja. Ela não sabia que outra coisa elas podiam fazer.
Nervosa, insegura, Luce esticou o braço como se fosse um bastão de baseball. Deu uma respiração profunda e lançou para frente. Arrepiou-se ao contato frio enquanto afastava a sombra – e golpeou o topo da cabeça de Penn.
Penn pressionou suas mãos contra seu crânio e olhou Luce em choque.
— Qual é o seu problema?
Luce se sentou junto a ela e tocou a parte de cima do cabelo de Penn.
— Desculpe. Havia... pensei que vi uma abelha... pousar em sua cabeça. Me assustei. Não queria que te picasse.
Ela podia sentir quão absurdamente, totalmente pobre essa desculpa era e esperou que sua amiga lhe dissesse que ela estava louca – por que uma abelha estaria em uma biblioteca? Ela esperou que Penn ficasse furiosa. Mas o rosto redondo de Penn se suavizou. Ela pegou a mão de Luce entre a sua e as agitou.
— As abelhas me aterrorizam também — ela contou. — Sou mortalmente alérgica. Basicamente você salvou a minha vida.
Foi como se tivessem um grande momento de conexão – só que não era, porque Luce estava completamente consumida pelas sombras. Se tão somente pudesse afastá-las de sua mente, afastar as coisas das sombras, sem assustar Penn. Luce tinha um forte e inquieto pressentimento sobre esta sombra cinza-clara. A uniformidade das sombras nunca tinham sido reconfortantes, mas estas últimas variações eram novas em um nível desconcertante.
Significava que mais tipos de sombras estavam encontrando uma maneira de chegar a ela? Ou só era ela que estava ficando melhor em distingui-las? E o que era este estranho momento durante a leitura da Srta. Sophia, quando ela praticamente exortou uma sombra antes que pudesse entrar em seu bolso? Ela tinha feito isso sem pensar, e não tinha razão para esperar que seus dois dedos pudessem fazer algo à sombra, mas eles tinham feito – ela deu uma olhada ao redor das estantes – pelo menos temporariamente.
Ela se perguntava se ela tinha arrumado algum tipo de precedente para interagir com as sombras. Exceto que para chamar o que ela tinha feito com a sombra pairando sobre a cabeça de Penn de “interagir” – inclusive Luce sabia que era um eufemismo. Um frio e doentio sentimento cresceu em seu interior quando percebeu que o que ela tinha começado a fazer com as sombras era mais como... lutar com elas.
— Essa é a coisa mais estranha — Penn falou do chão. — Deveria ser exatamente aqui entre O Dicionário dos Anjos e esta coisa horrível de Billy Graham fogo-e-enxofre. — Ela levantou a vista para Luce. — Mas sumiu.
— Pensei que você tivesse dito...
— Eu disse. O computador tinha listado as estantes quando procurei esta tarde, mas não podemos conectar a esta hora para checar de novo.
— Pode perguntar à Todd — Luce sugeriu. — Talvez ele esteja usando como capa para suas Playboys.
— Que nojento — Penn bateu em sua coxa.
Luce saiba que só tinha feito essa brincadeira para baixar um pouco sua decepção. Isso era tão frustrante. Ela não podia encontrar nada sobre Justin sem correr contra uma parede. Ela não sabia o que poderia encontrar nessas páginas do livro de sua tatara-tatara-o que seja do livro, mas pelo menos lhe diria algo mais sobre Justin. No qual era melhor que nada.
— Fique aqui — disse Penn, levantando-se. — Vou perguntar para a Srta. Sophia se alguém o tirou hoje.
Luce a observou ir sobre o longo corredor até a mesa da frente. Ela riu quando Penn apertou o passo quando passou pela área onde Todd estava sentado.
Sozinha no canto de trás, Luce roçou alguns dos outros livros na estante. Ela fez uma rápida e mental revisão de todos os estudantes na Sword & Cross, mas não podia pensar em nenhum candidato para tirar um velho livro de religião. Talvez a Srta. Sophia tinha usado como referência para sua sessão de revisão mais cedo.
Luce se perguntou o que deve ter sido para Justin ficar sentado lá, escutando a bibliotecária falar sobre coisas que tinham sido provavelmente temas da mesa de jantar em sua casa quando ele estava crescendo. Luce queria saber como tinha sido a infância dele. O que tinha acontecido a sua família? Teve sua educação em um orfanato religioso? Ou tinha sido sua infância como a dela, onde as únicas coisas perseguidas religiosamente eram boas notas e honras acadêmicas? Ela queria saber se Justin tinha lido este livro escrito por seu ancestral e o que ele tinha pensado sobre isso, e se ele gostava de escrever.
Ela queria saber o que ele estava fazendo exatamente agora na festa de Gabbe e quando era seu aniversário e qual o tamanho do sapato que usava e se ele alguma vez desperdiçou um segundo de seu tempo pensando nela.
Luce sacudiu sua cabeça. Este tipo de pensamento estava dirigindo-se diretamente a Cidade da Piedade, e ela queria sair. Tirou o primeiro livro da estante – a tão desinteressante surrada capa do Dicionário dos Anjos – e decidiu se distrair lendo até que Penn voltasse.
Ela tinha ido até o ponto quando o anjo caído Abbadon, que se arrependeu de estar do lado de Satanás e constantemente lamentava sua má decisão – bocejo – quando um som forte soou sobre sua cabeça. Luce olhou para cima para ver a luz vermelha do alarme de incêndio.
Alerta. Alerta — uma monótona voz robótica anunciava em voz alta. — O alarme de incêndio foi ativado. Evacuem o prédio.
Luce deslizou o livro de volta para a estante e começou a correr. Eles tinham feito este tipo de coisa em Dover o tempo todo. Depois de um tempo, tinha chegado ao ponto onde nem mesmo os professores ouviam as simulações de incêndios mensalmente, então o Departamento de Bombeiros tinha realmente começado a configurar o alarme só para as pessoas responderem.
Luce podia ver claramente os administradores da Sword & Cross fazendo a mesma coisa. Mas quando ela começou a caminhar até a saída, foi surpreendida ao encontrar-se tossindo. Tinha fogo de verdade na biblioteca.
— Penn? — Ela gritou, escutando o eco de sua voz em seus ouvidos.
Ela sabia que seria abafada pelo ruído do alarme. O odor da fumaça a fez instantaneamente voltar às chamas na noite com Trevor. Imagens e sons flutuavam em sua cabeça, coisas que ela tinha abafado tão profundamente de sua memória que poderiam muito bem ter sido apagadas. Até agora.
Os surpreendentes olhos brancos de Trevor contra a luz alaranjada. As individuais chamas enquanto o fogo se dispersava entre cada um de seus dedos. O agudo e interminável grito que ressoava em sua cabeça como uma sirene muito depois que Trevor tivesse dado por vencido. E todo o tempo, ela tinha estado ali parada, observando, ela não podia deixar de ver, congelada neste banho de calor. Ela não tinha sido capaz de mover-se. Ela não tinha sido capaz de fazer algo para ajudá-lo. Então ele morreu.
Sentiu alguém agarrar seu pulso esquerdo e se virou, esperando ver Penn. Era Todd. O branco de seus olhos eram enormes, e ele estava tossindo também.
— Temos que sair daqui — ele disse, respirando rápido. — Acho que a saída está na parte de trás.
— E Penn e a Srta. Sophia? — Luce perguntou.
Ela estava se sentindo fraca e enjoada. Esfregou os olhos.
— Elas estavam ali.
Quando ela apontou para o corredor até a entrada, ela podia ver o quanto a fumaça tinha se tornado mais grossa nesta direção.
Todd olhou receoso por um segundo, mas depois assentiu.
— Ok — ele disse, mantendo-se agarrado ao pulso dela enquanto se agachavam e corriam até as portas principais da biblioteca.
Foram para a direita quando um corredor parecia particularmente estar cheio de fumaça, encontraram-se em uma parede de livros sem nenhuma pista de até onde correr. Os dois pararam para respirar.
A fumaça que só a alguns momentos estava sobre suas cabeças, agora pressionava abaixo de seus ombros. Ainda agachados nela, eles estavam se asfixiando. E não podiam ver nada mais que alguns metros à frente deles. Certificando-se de se manter agarrada a Todd, Luce deu uma volta em círculo, repentinamente insegura de qual direção eles tinham vindo. Ela estendeu a mão e sentiu um metal quente de uma estante. Ela nem sequer podia ver os títulos nos livros. Estavam na sessão de D ou O?
Não tinham pista que guiasse até Penn e a Srta. Sophia, e nenhuma pista que os guiassem para a saída tampouco. Luce sentiu uma onda de pânico passar por ela, fazendo mais difícil respirar,
— Elas já devem ter saído pelas portas da frente! — Todd gritou, parecendo meio convencido. — Temos que voltar!
Luce mordeu seu lábio. E se alguma coisa aconteceu com Penn? Ela mal podia ver Todd, que estava parado exatamente em frente a ela. Ele tinha razão, mas qual era o caminho de volta?
Luce assentiu silenciosamente, e sentiu a mão dele tomando a dela.
Por um longo tempo, ela se moveu sem saber onde estavam indo, mas enquanto eles seguiam, a fumaça se desvanecia, pouco a pouco, até que, eventualmente, ela viu o brilho vermelho da saída de emergência. Luce deu um suspiro de alívio enquanto Todd procurava pela maçaneta da porta e finalmente a abriu.
Eles estavam em um corredor que Luce jamais tinha visto. Todd fechou a porta atrás deles. Eles tossiram e encheram seus pulmões com ar limpo. Tinha um gosto tão bom, Luce queria afundar seus dentes nisso, beber um galão disso, banhar-se nisso.
Ela e Todd tossiram a fumaça para fora de seus pulmões até que começaram a rir, uma inquieta, quase aliviada risada. Eles riram até que ela estava chorando. Mas mesmo quando Luce terminou de chorar e tossir, seus olhos continuavam lacrimejando. Como podia respirar neste ar quando ela nem sequer sabia o que tinha acontecido a Penn? E se Penn não tinha conseguido sair – se estava presa em algum lugar lá dentro – então Luce tinha falhado com alguém a quem lhe importava novamente. Só que desta vez seria muito pior.
Ela limpou os olhos e viu uma nuvem de fumaça passando por baixo da rachadura da base da porta. Ainda não estavam a salvo. Tinha outra porta no final do corredor. Através do painel de cristal da porta, Luce podia ver a forma de um ramo de uma árvore na noite. Exalou. Em pouco tempo, estariam do lado de fora, longe dessa fumaça intoxicante.
Se fossem o suficiente rápido, podiam ir para a entrada principal e assegurar-se de que Penn e a Srta. Sophia tinham saído.
— Vamos — Luce falou a Todd, que estava curvado, respirando com dificuldade. — Temos que continuar.
Ele se endireitou, mas Luce podia ver que estava realmente mal. Seu rosto estava vermelho, seus olhos eram selvagens e molhados. Ela praticamente teve que arrastá-lo até a porta. Ela estava tão concentrada em sair dali que levou um tempo para processar o pesado ruído que tinha caído sobre eles, silenciando o alarme.
Ela olhou para o redemoinho de sombras. Um espectro de sombras de tons de cinza e o mais profundo negro. Ela só devia ser capaz de ver um pouco mais sobre o teto, mas as sombras pareciam de alguma maneira estender-se sobre os limites, em um estranho e escondido céu. Todas estavam amontoadas umas sobre as outras, mas ainda assim, de alguma maneira eram distintas.
No meio delas estava a sombra mais clara e cinza que ela tinha visto anteriormente. Não era mais da forma alongada de uma agulha, mas agora parecia quase como a chama de um fósforo. Se balançou até eles no corredor. Ela realmente tinha apartado essa forma obscura quando tinha ameaçado esfolar a cabeça de Penn? A recordação fez com que suas palmas lhe coçassem e seus dedos se enrolarem.
Todd começou a bater-se contra as paredes, como se o corredor estivesse aproximando-se dele. Luce sabia que eles estavam em algum lugar próximos da porta. Ela pegou sua mão, mas suas mãos suadas se deslizaram uma e outra vez. Ela enrolou seus dedos fortemente ao redor do pulso dele. Ele estava tão pálido como um fantasma, agachou-se do chão, quase encolhido. Um gemido de pavor escapou de seus lábios.
Era porque a fumaça agora estava chegando no corredor? Ou era porque ele também podia ver as sombras? Impossível.
Ainda assim, seu rosto estava comprimido e horrorizado. Muito mais agora que as sombras estavam aproximando-se.
— Luce? — Sua voz tremeu.
Outra onda de sombras se levantou diretamente em seu caminho. Uma cortina negra intensa se estendeu sobre as paredes e fez impossível para Luce ver o chão. Ela olhou para Todd – ele podia ver isso?
— Corre! — Ela gritou.
Ele ainda podia correr? Seu rosto estava cinzento e suas pálpebras fechadas. Ele estava a ponto de desmaiar. Mas então, repentinamente parecia como se ele estivesse carregando-a. Ou algo estava carregando os dois.
— Que diabos...? — Todd gritou.
Seus pés se levantaram do chão só por um momento. Sentiu como se estivesse em uma onda no oceano, um cume leve que a levantava mais alto, levando seu corpo ao ar. Luce não sabia até onde iria – ela nem sequer podia ver a porta, só um monte de sombras ao redor. Próximas dela, mas não a tocaram. Ela deveria ter estado horrorizada, mas não estava. De alguma maneira se sentia protegida das sombras, como se algo a estivesse protegendo – algo flexível mas impenetrável. Algo estranhamente familiar. Algo forte, mas gentil. Algo... quase muito rápido, ela e Todd estavam na porta. Seus pés tocaram o chão de novo, e ela se lançou contra porta de emergência.
Então ela soltou. Sufocada. Ofegante. Com ânsia de vômito.
Outro alarme estava soando. Mas estava soando muito longe.
O vento roçou seu pescoço. Eles estavam do lado de fora! Parados em um pequeno peitoral, um lance de escadas chegavam até a área principal, e inclusive quando tudo em sua cabeça se sentia nublado e cheio de fumaça, Luce pensou que podia escutar vozes em algum lugar próximo. Ela virou para tentar saber o que tinha acontecido. Como ela e Todd tinham saído através dessa grossa, negra e impenetrável sombra? E o que era essa coisa que os tinha salvo? Luce sentiu sua ausência. Ela quase queria voltar para procurá-la. Mas o corredor estava escuro, e seus olhos ainda estavam cheios de lágrimas, e ela já não podia distinguir as retorcidas formas das sombras. Talvez tivessem ido.
Depois houve uma irregular pincelada de luz, algo que parecia com o tronco de árvore com ramos – não, como um torço amplos, longos membros. Uma pulsante, quase violeta coluna de luz movendo-se pra cima deles. Isso fez com que Luce pensasse, absurdamente, em Justin. Ela estava vendo coisas. Ela respirou fundo e tentou piscar as lágrimas de fumaça de seus olhos. Mas a luz ainda estava ali. Ela sentia mais que ouvi-la chamar, acalmando-a, uma canção de ninar em meio a uma zona de guerra.
Então ela não viu chegar a sombra.
Bateu no corpo dela e de Todd, rompendo a ligação um do outro, e lançando Luce no ar.
Ela aterrissou ao pé das escadas. Um grunhido agonizante escapou de seus lábios. Por um longo momento sua cabeça latejava. Ela nunca tinha conhecido uma dor tão profunda e abrasadora como esta. Ela chorou durante a noite, no conflito de luz e sombra sobre sua cabeça. Então tudo se tornou muito e Luce se entregou, fechando os olhos.

Continua...